Terça-feira, Setembro 08, 2009

Sonia Delaunay, Fabric Pattern


Rotina

Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.

Nuno Júdice

Quinta-feira, Agosto 20, 2009

Coisas que se encontram em discos rígidos

Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Sexta-feira, Agosto 14, 2009

Uma certa quantidade

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro

Mário Cesariny

Domingo, Julho 19, 2009

«a corrida quieta da leitura» (MFM)

Cada livro dá uma velocidade de leitura; como um carro; um livro deveria ter na sua capa ou na contracapa indicações de velocidade máxima e mínima de leitura: não ler a menos do que vinte páginas por hora, não ler a mais do que quarenta páginas por hora. (ideia a desenvolver)
Claro que a velocidade engana: livros imbecis, mas também livros perfeitos, podem ser lidos a uma grande velocidade, suponhamos: cem páginas por hora. Não é tanto a velocidade potencial d eleitura de um livro que dá a sua qualidade, é mais o local aonde se chega com essa velocidade.
E que importa estar num carro que vai a uma grande velocidade, se ele chega a um sítio que eu não desejo (rapidamente, é certo)?
E que importa estar num carro que vai a uma velocidade lenta para que os seus passageiros possam apreciar a paisagem, se a paisagem não é relevante?
Contemplar quando estamos em viagem se a coisa contemplada for interessante.
Claro, dirão, ler é bom para os sentimentos, para os abanar: por favor, não introduza dados quantitativos no prazer da leitura.
Porém, não esquecer: o que fez cada um com o que leu à velocidade que leu? Paisagem e sítios de chegada. Contabilidade económica de leitura.
(Não podemos ler tudo. Somos mortais, meu caro.)

Gonçalo M. Tavares, Breves Notas sobre as ligações (Llansol, Molder e Zambrano), Relógio de Água, pág. 65

Quarta-feira, Julho 01, 2009

Julho

Há café e tabaco
e chá de baunilha
e janelas abertas que não deixam ver
E há a cidade toda
emoldurada, que não cabe,
que sufoca
E o fechar da porta
a as sandálias que incomodam
os pés não descalços
sem nunca encontrar
uma palavra, um som, uma imagem,
uma alma,
qualquer coisa sem chaves que faça sentido
e a que se possa chamar
casa.

Há café e tabaco.

Segunda-feira, Junho 29, 2009

Marinations

under a canvas awning, a few
metres above sea level, with backs
to the harbour the poets are reading —
their audience reclines on smooth fresh
mown lawn, swish as a cecil beaton
snap: lyric marinates the air; the p.a system
amplifies the verse right
to the water’s edge, where an evening
swimmer unaware of the source of
these bardic sounds, seeing is believing, may
mistake them for announcements
at a livestock sale or a stubborn
address from a captain whose ship
is going down

Joanne Burns